domingo, 10 de junho de 2012

A Ciência dos Cientistas: teorias epistemológicas acerca do fazer científico

Por: Hênio Santos de Almeida


SUMÁRIO
1. O Positivismo Lógico
2. O Falsificacionismo “Ingênuo”
3. As Revoluções Científicas
4. O Falsificacionismo “Sofisticado”
Referências





1. O Positivismo Lógico

Uma das concepções epistemológicas surgidas no século XX foi o positivismo lógico. Seus principais representantes provêm do Círculo de Viena. Os positivistas lógicos tinha uma ambição: criar uma Ciência das Ciências. Partiam da Filosofia das Ciências, que buscava dar um embasamento lógico às teorias científicas, na medida em que cunharia as regras da linguagem científica, eliminando construções sem sentido. Para eles, o valor da Matemática e da Lógica advinha da capacidade de deduções válidas e verdadeiras. Para a ciência, no entanto, seria utilizada a indução: a partir de observações, seriam feitas generalizações.

Uma das exigências do positivismo lógico é a base observável da teoria. Para eles, uma teoria seria aceita ou recusada apenas a partir das observações ou experiências. O critério de demarcação de ciência e não-ciência é, para eles, a existência de um método – o indutivo – baseado na observação, bem como a verificação das teorias mediante observação e experimentos. A tarefa da Filosofia das Ciências seria “analisar logicamente os conceitos científicos.”(ALVES-MAZZOTTI, p. 12) A Filosofia da Ciência, dessa forma, teria o papel de definidora das condições universais que diferenciariam a ciência da pseudociência. Já a Ciência das Ciências do Círculo de Viena tinha a pretensão de ditar as regras do fazer científico. Isso se daria no momento em que os cientistas, ao confrontarem-se com os problemas de sua atividade, utilizar-se-iam da linguagem previamente definida. Com tal empreendimento, no entanto, perde-se a dimensão histórica da ciência, tendo, por conseguinte, um “congelamento” do fazer científico.

2. O Falsificacionismo “Ingênuo”

Esta corrente de pensamento insere-se na chamada Filosofia das Ciências. Um de seus principais expoentes foi Karl Popper. Popper criticava a concepção de indução dos positivistas lógicos, demonstrando que não há lógica no método indutivo, pois nada indica que as observações futuras seguirão os padrões das atuais. Dessa forma, ele diferencia-se do Círculo de Viena ao demonstrar que o critério de demarcação entre ciência e não-ciência não deve ser a verificação, mas a falsificação. Daí provém o nome: falsificacionismo. Popper acreditava que as regularidades que impomos ao mundo são princípios apriorísticos da estrutura de nosso pensamento, mas não são válidos a priori, ou seja, podem estar equivocados. Dessa forma, ele entende que essa imposição é uma adequação do mundo às nossas categorias.

Ele critica os fundamentos do positivismo lógico, ao defender que a observação é derivada de uma teoria anterior. Com isso, tenta provar que a observação não pode verificar uma teoria, pois a teoria a ser verificada foi que deu os parâmetros de verificação. A utilidade da observação para Popper deriva da capacidade de refutar uma teoria científica. Esta refutabilidade é o critério de demarcação de ciência e não-ciência, uma vez que a aceitação da refutação leva a uma atitude crítica e a negação dessa refutação a uma atitude dogmática.

Popper permanece no positivismo, contudo, quando dá tal poder à observação: é a observação que refuta a teoria, ou seja, a partir da lógica tiram-se inferências que serão testadas em experiências. “A observação e a experimentação repetidas funcionam na ciência como testes de nossas conjecturas ou hipóteses – isto é, como tentativas de refutação.” (POPPER, p. 83) Uma vez que tais testes revelem que a teoria errou em sua previsão, tal teoria deve ser refutada. É um positivismo quanto à falsificação e não quanto à verificação, pois as duas concepções dão caráter decisivo à observação (ou experimentação):“[...] o destino de uma teoria – sua aceitação ou rejeição – é decidido pela observação e pela experimentação: pelo resultado dos testes [...].” (POPPER, p. 84)

Popper conseguiu fazer críticas contundentes à concepção positivista, mas não se diferenciou suficientemente. Ademais, sua teoria dá a entender que qualquer observação pode derrubar uma teoria científica, fato por demais duvidoso e que dará as linhas mestras das críticas a este falsificacionismo“ingênuo”.

3. As Revoluções Científicas

Thomas Kuhn desenvolveu uma História das Ciências. Para ele, o argumento popperiano da falsificação não se evidenciava na história. Kuhn identifica a ciência como uma atividade composta de três momentos:

Período pré-paradigmático – várias teorias disputam entre si o status de paradigma;

Período paradigmático ou de ciência normal – um paradigma se impõe;

Período pós-paradigmático – novos candidatos a paradigma entram em cena.

Kuhn não concebe que a observação possa refutar uma teoria, como queriam os falsificacionistas, pois

“[...] nenhum processo descoberto até agora pelo estudo histórico do desenvolvimento científico assemelha-se ao estereótipo da falsificação por meio da comparação direta com a natureza. [...] O juízo que leva os cientistas a rejeitarem uma teoria previamente aceita, baseia-se sempre em algo mais que essa comparação da teoria com o mundo”. (KUHN, p. 108)

Kuhn também é contrário à ideia de acumulação científica presente no positivismo. Uma revolução científica, segundo ele, é diferente da rearticulação do paradigma anterior: o antigo paradigma “é total ou parcialmente substituído por um novo, incompatível com o anterior”. (KUHN, p. 125)

Quanto à pergunta: “o que leva a uma revolução científica?”, Kuhn entende que é o acúmulo de anomalias que o paradigma não consegue resolver. Isto chama a atenção de alguns cientistas que buscam solucioná-las. A opção dos cientistas por um paradigma, segundo Kuhn, se dá em virtude de diversos fatores, dentre os quais a crença no potencial do novo paradigma.

Para Kuhn, um paradigma é o proponente de problemas e soluções a esses problemas. No período de ciência normal, ele identifica um processo de acúmulo dentro do paradigma (cf.: KUHN, p. 77). Mas para evitar confusões, ele deixa claro que não entende paradigma como uma teoria, pois “nem todas as teorias são teorias paradigmáticas”. (KUHN, p. 87) A tese de Kuhn é de que não há como julgar qual paradigma é mais eficiente entre dois ou mais candidatos a paradigmas. Este é o aspecto da incomensurabilidade dos paradigmas. Mas revolução do pensamento queniano se dá quando ele afirma que

“[...] o progresso científico não difere daquele obtido em outras áreas, mas a ausência, na maior parte dos casos, de escolas competidoras que questionem mutuamente seus objetivos e critérios, torna bem mais fácil perceber o progresso de uma comunidade científica normal”. (KUHN, p. 205).

Com essa afirmação, ele defende que a diferença entre ciência e não-ciência não é, como queriam os positivistas, a existência de um método ou, como queriam os falsificacionistas, a possibilidade de falsear uma teoria a partir da observação, mas a ausência de visões de mundo competidoras. Dessa forma, ele defende a atitude dogmática dos cientistas, uma vez que estes devem trabalhar e não se indagar sobre os fundamentos de seu campo de atuação, pois somente assim a ciência progride (cf.: KUHN, p. 192).

4. O Falsificacionismo “Sofisticado”

Imre Lakatos aceitou as críticas de Kuhn, desenvolvendo uma versão mais sofisticada do falsificacionismo popperiano. Nesta versão, a teoria não é simplesmente abandonada se houver uma observação que a negue. Lakatos entende que uma teoria somente é falsificada se existir uma nova teoria que explique tudo o que a teoria falsificada explicava mais um elemento (cf.: LAKATOS, p. 37). Esta novidade se dá em dois níveis: no nível lógico e no nível empírico. No nível lógico, a teoria nova precisa prever algo que a antiga não previa ou proibia. No nível empírico, é preciso haver verificação de alguma das previsões adicionais da teoria.

Por isso, Lakatos entende que não são avaliadas teorias isoladas, mas várias teorias (cf.: LAKATOS, p. 39). Isso porque é preciso avaliar a nova em relação à antiga. Com isso, ele mantém a ideia de acúmulo científico, uma vez que a atual teoria é melhor que a antiga justamente por ter algo que a antiga não tinha. O critério para demarcação entre teorias científicas e pseudocientíficas é esse progresso teorético e empírico. As teorias que não trazem este progresso são chamadas por ele de teorias degenerativas. Desta forma, uma teoria pode ser científica e degenerativa ao mesmo tempo, se ela não trouxer o elemento adicional à teoria anterior.

Lakatos entende que uma teoria vai ser falsificada somente quando uma teoria da série tiver maior conteúdo corroborado – nos dois níveis: teorético e empírico. Para ele, “um dado facto é explicado cientificamente somente se um facto novo é também explicado”. (LAKATOS, p. 39) Isso significa fundamentalmente que uma teoria isolada não pode ser científica ou pseudocientífica. Ela só adquirirá um caráter científico em comparação a outras teorias anteriores.

Diferente de Kuhn, Lakatos entende que é possível mensurar as diferenças nos “programas científicos”. Diferente de Popper, ele entende que não há falsificação antes do surgimento de uma nova teoria. Com isso, rompe com o positivismo também, uma vez que não se trata de avaliar a teoria de acordo com sua adequação à observação, mas em uma relação dialógica entre observação e teorias anteriores, e porque é a teoria que deve criar novos fatos.

Para fortalecer seu argumento, Lakatos defende que em um programa científico existe um cinturão de teorias que serve apenas para proteger o centro. Este cinturão protetor pode ser alterado indefinidamente, contanto que o núcleo do programa não seja atingido: “o falsificacionismo sofisticado acentua a urgência da substituição de qualquer hipótese por outra melhor”. (LAKATOS, p. 42)


REFERÊNCIAS


ALTHUSSER, Louis. Sobre o Trabalho Teórico. Porto: Presença, 1978.

ALVES-MAZZOTTI, Alda Judith e GEWANDSZNAJDER, Fernando. “Ciência Natural: Os pressupostos filosóficos”. in: O Método nas Ciências Naturais e Sociais: pesquisa quantitativa e qualitativa. São Paulo: Pioneira, 2001.

BACHELARD, Gaston. “As modalidades da ciência”. in: BOURDIEU, Pierre. A profissão do sociólogo: preliminares epistemológicas. Petrópolis: Vozes, 1999.

CANGUILHEM, Georges. “O neopositivismo, acasalamento do sensualismo com o formalismo.” in: BOURDIEU, Pierre. A profissão do sociólogo: preliminares epistemológicas. Petrópolis: Vozes, 1999.

KUHN, Thomas Samuel. “As revoluções como mudança de concepções de mundo”. in: A Estrutura das Revoluções Científicas. São Paulo: Perspectivas, 1998.

LAKATOS, Imre. “Ciência: Razão ou religião?”. in: Falsificação e Metodologia dos programas de investigação científica. Lisboa: Edições 70, 1999.

LECOURT, Dominique. Para uma crítica da epistemologia. Lisboa: Maspero, 1972.

POPPER, Karl Raimund.“Ciência: Conjecturas e refutações”. in: Conjecturas e Refutações. 2ª ed. Brasília: UNB, 1982.

Nenhum comentário: