domingo, 10 de junho de 2012

O "Dia Intenacional da Mulher"... Mas para quê?

Por: Hênio Santos de Almeida



“Ninguém nasce mulher. Torna-se mulher.”
(Simone de Beauvoir)

 “É uma menina!” Geralmente é o que dizem as pessoas quando nasce uma criança do sexo feminino. Mas poucas pessoas reconhecem o que está implícito nessa fala. Ela não significa apenas uma mera constatação, mas implica numa expectativa social: nasceu menina, logo deverá portar-se como menina.

Muito mais do que apenas designar o sexo, “ser mulher” significa assumir um papel social. E, nesse caso, nascer mulher pode não ser tão bom quanto parece. Basta que nos lembremos do papel social que ainda se atribui à mulher: o dever sagrado de ser mãe (e boa mãe) – como se não ter filhos fosse um pecado; casar-se – como se não se casar fosse algo imperdoável; brincar brincadeiras de menina – que devem prepará-la para que na vida aja exatamente como dela se espera (por isso as bonecas são uma antecipação do que lhe está reservado); etc.

A mulher cai assim numa armadilha: ao dizer que nasceu “mulher”, assume um papel e veste um personagem inventado por uma sociedade machista. “Não se nasce mulher” no sentido de que os valores que a sociedade impõe com essa classificação a uma pessoa não nasceram com ela. Assumir-se como “mulher”simplesmente por ter nascido com um aparelho genital feminino é jogar fora as possibilidades de fazer-se uma verdadeira mulher constituída não pelos pressupostos sociais, mas pela sua própria personalidade.

É preciso que as mulheres hoje se tornem mulheres para si mesmas. Com isso quero dizer que se ouve muito sobre o que as pessoas esperam de uma “boa mulher”, mas muito pouco se ouve sobre o que a mulher espera de si mesma. Se uma mulher diz:“não quero filhos agora, pois quero me formar primeiro”, logo é tachada de egoísta ou coisa semelhante. Se uma mulher diz: “quero ter minha independência financeira antes de me casar”, logo as pessoas desconfiam dela.

A mulher está hoje entre o que a sociedade proclama como “ser mulher” e ela mesma. A mulher pode escolher tornar-se uma mulher para a sociedade ou tornar-se uma mulher para si mesma independentemente do que as outras pessoas dirão a respeito dela. Mas se ela opta por ser si mesma, deve estar preparada para as adversidades que a sociedade lhe imporá.

A mulher é assim um ser subjetivo que pode tornar-se aquilo que ela quiser ser e“contrariar” a sociedade que a envolve. Nada nem ninguém pode dizer o que é uma mulher, posto haver várias formas de ser mulher e que cada uma deve descobrir seu próprio jeito de realizar-se como mulher.

Mas é necessário que a mulher que está se tornando mulher se aperceba das armadilhas que a sociedade coloca em seu caminho. Um bom exemplo de uma delas é este“dia da mulher”. Por que a mulher ganhou um dia especial? Porque os outros dias não são dela. Dá-se um dia à mulher para que nesse dia se possa dizer a ela, por meio de poemas e até de eventos religiosos, quem ela é, o que ela não pode ou deve ser. É um dia não apenas de interesse comercial, mas muito mais ideológico.

Claro e óbvio é que podemos ressignificar o “dia da mulher”, assim como podemos ressignificar todos os dias do ano. O importante mesmo é que não nos esqueçamos de que dentro de cada mulher habita uma mulher em desconstrução, construção e reconstrução, e assim tenhamos sempre vívido em nossa consciência que não existe uma mulher ideal que todas as mulheres devem alcançar, mas existe o ideal que as pessoas fazem da mulher.

Que cada mulher seja única e verdadeiramente si mesma.

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