“Ninguém nasce mulher.
Torna-se mulher.”
(Simone de Beauvoir)
Muito mais do que apenas designar o sexo, “ser
mulher” significa assumir um papel social. E, nesse caso, nascer mulher pode
não ser tão bom quanto parece. Basta que nos lembremos do papel social que
ainda se atribui à mulher: o dever sagrado de ser mãe (e boa mãe) – como se não
ter filhos fosse um pecado; casar-se – como se não se casar fosse algo
imperdoável; brincar brincadeiras de menina – que devem prepará-la para que na
vida aja exatamente como dela se espera (por isso as bonecas são uma
antecipação do que lhe está reservado); etc.
A mulher cai assim numa armadilha: ao dizer que
nasceu “mulher”, assume um papel e veste um personagem inventado por uma
sociedade machista. “Não se nasce mulher” no sentido de que os valores que a
sociedade impõe com essa classificação a uma pessoa não nasceram com ela.
Assumir-se como “mulher”simplesmente por ter nascido com um aparelho genital
feminino é jogar fora as possibilidades de fazer-se uma verdadeira mulher
constituída não pelos pressupostos sociais, mas pela sua própria personalidade.
É preciso que as mulheres hoje se tornem mulheres
para si mesmas. Com isso quero dizer que se ouve muito sobre o que as pessoas
esperam de uma “boa mulher”, mas muito pouco se ouve sobre o que a mulher
espera de si mesma. Se uma mulher diz:“não quero filhos agora, pois quero me
formar primeiro”, logo é tachada de egoísta ou coisa semelhante. Se uma mulher
diz: “quero ter minha independência financeira antes de me casar”, logo as
pessoas desconfiam dela.
A mulher está hoje entre o que a sociedade proclama
como “ser mulher” e ela mesma. A mulher pode escolher tornar-se uma mulher para
a sociedade ou tornar-se uma mulher para si mesma independentemente do que as
outras pessoas dirão a respeito dela. Mas se ela opta por ser si mesma, deve
estar preparada para as adversidades que a sociedade lhe imporá.
A mulher é assim um ser subjetivo que pode
tornar-se aquilo que ela quiser ser e“contrariar” a sociedade que a envolve.
Nada nem ninguém pode dizer o que é uma mulher, posto haver várias formas de
ser mulher e que cada uma deve descobrir seu próprio jeito de realizar-se como
mulher.
Mas é necessário que a mulher que está se tornando
mulher se aperceba das armadilhas que a sociedade coloca em seu caminho. Um bom
exemplo de uma delas é este“dia da mulher”. Por que a mulher ganhou um dia
especial? Porque os outros dias não são dela. Dá-se um dia à mulher para que
nesse dia se possa dizer a ela, por meio de poemas e até de eventos religiosos,
quem ela é, o que ela não pode ou deve ser. É um dia não apenas de interesse
comercial, mas muito mais ideológico.
Claro e óbvio é que podemos ressignificar o “dia da
mulher”, assim como podemos ressignificar todos os dias do ano. O importante
mesmo é que não nos esqueçamos de que dentro de cada mulher habita uma mulher
em desconstrução, construção e reconstrução, e assim tenhamos sempre vívido em
nossa consciência que não existe uma mulher ideal que todas as mulheres devem
alcançar, mas existe o ideal que as pessoas fazem da mulher.
Que cada mulher seja única e verdadeiramente si
mesma.

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