INTRODUÇÃO
Este diálogo fictício com Karl Marx tenciona proporcionar as pessoas uma ideia geral de seu conceito de “mercadoria” segundo Marx. Seguirei o modelo proposto por Sócrates, dialógico, no qual as ideias vão sendo construídas aos poucos, a fim de chegar ao conhecimento do assunto tratado. Optei por ter como interlocutor o próprio autor, em uma situação imaginária, onde ele explica o que escreveu em seu texto “Die Ware” (In: MARX, Karl. Das Kapital. Kritik der politischen Oekonomie. Buch I: Der Produktionsprocess des Kapitals. Hamburg: Meissner 1867, capítulo 1).
Este diálogo fictício com Karl Marx tenciona proporcionar as pessoas uma ideia geral de seu conceito de “mercadoria” segundo Marx. Seguirei o modelo proposto por Sócrates, dialógico, no qual as ideias vão sendo construídas aos poucos, a fim de chegar ao conhecimento do assunto tratado. Optei por ter como interlocutor o próprio autor, em uma situação imaginária, onde ele explica o que escreveu em seu texto “Die Ware” (In: MARX, Karl. Das Kapital. Kritik der politischen Oekonomie. Buch I: Der Produktionsprocess des Kapitals. Hamburg: Meissner 1867, capítulo 1).
A MERCADORIA
(Die Ware)
(Hênio) – É que gostaria de explicar a várias
pessoas teu conceito de mercadoria que aparece naquele aquele teu texto... A
Mercadoria.
(Marx) – Mas qual o problema? Nós já conversamos
sobre ele várias vezes... Pensei que tu concordavas com o que escrevi...
(Hênio) – Concordo, em parte, mas discutir é uma
coisa, escrever é outra muito diferente...
(Marx) – Posso tentar te ajudar, se tu deixares, é
claro.
(Hênio) – Eu aceito a ajuda...
(Marx) – Vamos começar então...
(Hênio) – A mercadoria é, na sociedade capitalista,
a forma elementar da riqueza. O acúmulo das mercadorias significa acúmulo de
riquezas...
(Marx) – Exatamente. A mercadoria é um objeto
externo – uma “coisa” que possui propriedades – utilizado para satisfazer as
necessidades (Bedürfnisse) humanas.
(Hênio) – E o que isso tem a ver com o valor da
mercadoria?
(Marx) – Primeiro é necessário diferenciar o
valor-de-uso e o valor-de-troca. O valor-de-uso é dado pela utilidade da
mercadoria. Ela própria é um valor-de-uso. Esse tipo de valor só se realiza no
consumo. É o conteúdo material da riqueza e os veículos materiais do
valor-de-troca.
(Hênio) – E como sei sobre o valor-de-troca?
(Marx) – Através da relação quantitativa de
valores-de-uso diferentes. Aparentemente, a mesma mercadoria tem vários valores-de-troca,
pois pode ser trocada por várias outras em quantidades diferentes. O que
acontece é que todos os valores-de-troca de uma mercadoria representam uma
igualdade, expressando uma substância distinguível dele.
(Hênio) – Como assim? Não compreendi muito bem...
(Marx) – Hênio, se pegarmos duas mercadorias: o
trigo e o ferro, independentemente da proporção das trocas, é possível
expressá-la com uma igualdade, por exemplo, uma tonelada de trigo = n toneladas
de ferro.
(Hênio) – Mas como comparar duas mercadorias de
espécies diferentes?
(Marx) – Aí é que está: é como se houvesse uma
terceira coisa, à qual as duas se igualam, mas que é diferente de ambas. Todos
os valores-de-troca são redutíveis a essa terceira. Uma tonelada de trigo = x e
n toneladas de ferro = x.
(Hênio) – Mas o que é essa “terceira coisa” tão
misteriosa?
(Marx) – Calma, já chegamos lá. Antes, porém, é
necessário vermos que diferentes valores-de-uso valem um tanto quanto o outro,
se estiver na proporção adequada.
(Hênio) – E como isso se dá?
(Marx) – Como valores-de-uso, as coisas são de
qualidades diferentes, mas como valores-de-troca são de quantidades diferentes,
não restando nada de valor-de-uso.
(Hênio) – Deixa-me ver se entendi até aqui: o
valor-de-uso de uma mercadoria é determinado por suas propriedades, que servem
para satisfazer as necessidades humanas. O valor-de-troca, por sua vez, é a
redução de dois ou mais valores-de-uso, diferentes em qualidades, a algo que
lhes é comum e ao mesmo tempo diferente deles. Com essa redução, todos os
valores-de-uso tornam-se iguais, se estiverem nas proporções adequadas.
(Marx) – Exato! Agora, voltando àquela pergunta
anterior: ao retirarmos o valor-de-uso de uma mercadoria, só lhe resta a
propriedade de ser produto do trabalho (Arbeit) humano. Abstraindo as formas e
elementos que a fazem valor-de-uso, resta apenas o trabalho humano abstrato. A
forma de medir o valor (Wert) de um bem é a partir da quantidade de trabalho
nele contido, que é medido, por sua vez, pelo tempo de sua duração...
(Hênio) – Espera aí: se assim fosse, uma pessoa
preguiçosa levaria mais tempo para produzir uma mercadoria, que teria um valor
maior. E uma pessoa que, devido à sua habilidade, leva menos tempo para fazer a
mesma mercadoria, consequentemente, teria um valor menor.
(Marx) – Aí que tu te enganas... Esse tempo de
trabalho não é o tempo de um indivíduo particular, mas a média do tempo
necessário para a produção (Produktion) da mercadoria. É o tempo socialmente
necessário para se produzi-la.
(Hênio) – Mas como uma mercadoria pode mudar de
valor então? E os aumentos de preços, como tu explicas?
(Marx) – É que o tempo socialmente necessário para
a produção de uma mercadoria não é constante: ele varia se houver mudança na
produtividade. Dá para tirarmos a regra: o valor de uma mercadoria varia na
proporção direta da quantidade e na inversa da produtividade do trabalho
aplicado nela.
(Hênio) – Humm... Entendi: se produzir muito num
tempo curto, o valor de cada unidade será menor, pois será embutida uma
quantidade menor de trabalho.
(Marx) – O trabalho possui um duplo caráter: um
quando se expressa como valor, que é o trabalho útil, associado ao valor-de-uso
da mercadoria; outro, quando gera o valor, que é o dispêndio da força humana.
Mede-se o trabalho humano gerador de valor a partir do trabalho simples médio
(t), ao qual o trabalho qualificado pode ser reduzido como trabalho simples
multiplicado (xt). Isso permite que trabalhos qualitativamente diferentes sejam
comparados. Se o valor de uma mercadoria representa o trabalho nela contido, é
possível compará-las em determinadas proporções. O mesmo trabalho gera no mesmo
tempo a mesma quantidade de valor, embora possa gerar quantidades diferentes de
valores-de-uso.
(Hênio) – Se em uma hora, são produzidos duas
mercadorias, o valor é de cada uma é igual a 1. Se, nessa mesma hora, são
produzidas 4 mercadorias, o valor unitário será 0,5, já que a soma dará o mesmo
valor de antes: 2. Certo?
(Marx) – Sim. E se for produzida apenas uma
mercadoria, seu valor será 2.
(Hênio) – Agora poderei fazer o trabalho para
entregar ao professor. Penso em transcrever nosso diálogo. Nada é mais válido
que o próprio autor falar sobre sua obra. Obrigado, amigo!
(Marx) – Não há de quê! Se precisar de mais alguma
coisa, tu sabes o meu endereço, é só escrever ou visitar.
A MERCADORIA
(Die Ware)
Valor-de-uso: É o tipo de valor que advém das
propriedades da mercadoria. Só é realizado no consumo. Serve para suprir necessidades
humanas;
Valor-de-troca: É o tipo de valor advindo do
trabalho empregado para a produção da mercadoria. Serve para comparar
mercadorias de valores-de-uso diferentes. É o valor propriamente dito.
Trabalho útil: É o tipo de trabalho gerador de
valor-de-uso;
Trabalho abstrato: É o tipo de trabalho gerador de
valor. É o resíduo do trabalho humano, independentemente das diferenças
qualitativas desse trabalho. É medido pelo trabalho simples médio, ao qual
todos os trabalhos qualificados são redutíveis.
Reduzindo todos os tipos de trabalho ao trabalho
simples, Marx constata que o valor de uma mercadoria é gerado pelo tempo
requerido para sua produção. Tendo chegado a essa definição, Marx demonstra que
o valor advém do tempo de trabalho e que o trabalho consumido em um tempo igual
produz um mesmo valor, independentemente da quantidade de valor-de-uso produzida
nesse ínterim. Se uma mercadoria é produzida em 1 hora, seu valor é igual ao
valor de 6 mercadorias produzidas em 10 minutos cada. Uma mercadoria produzida
em 2 horas tem o mesmo valor de duas mercadorias produzidas em uma hora cada. É
essa igualdade de valor produzido pelo mesmo tempo de trabalho que permite as
trocas de mercadorias diferentes, em suas proporções.
FETICHISMO DA MERCADORIA
(Warenfetischismus)
Aqui, Marx demonstrará que o mistério da mercadoria
está na própria forma de mercadoria, pois o trabalho humano toma a forma de
quantidade de valor. Dessa forma, as relações sociais dos produtores assumem a
forma de relação social entre os produtos do trabalho.
A mercadoria é misteriosa por ocultar a relação
existente entre trabalhos individuais e o trabalho total. A relação definida
entre homens assume a forma fantasmagórica da relação entre coisas. Marx
demonstra que em sociedades como a feudal, a relação social é mais visível e
que na sociedade capitalista, o valor é computado como se fosse intrínseco à
mercadoria.

Um comentário:
Adorei o diálogo com o véio Marx!
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