Resenha de: NIETZSCHE, Frederich Wilhem. Obras Completas.
Tomo I: El Origen de la Tragedia y Obras Póstumas de 1869 a 1873. Buenos Aires:
M. Aguilar, 1947. (Traducción, introducción y notas de Eduardo Ovejero y
Maury).
Nietzsche afirma que Platão, seguindo a preocupação
geral de sua época, afirma e considera a posição da mulher na Grécia como pouco
digna e contraria as leis da humanidade. Platão não faz mais que justificar
logicamente o que já existia na prática. E, diante dessa postura de Platão,
Nietzsche coloca a seguinte pergunta: A condição da mulher grega não guardava
uma relação “necessária” com o ideal do povo grego?
Nietzsche percebe que há uma concepção platônica da
mulher que está em aberta oposição com os costumes helênicos. Para Nietzsche,
nesta fase, Platão concede a mulher grega:
a) Participação nos direitos
b) Participação nos conhecimentos
c) Participação nos deveres dos homens
d) Ademais de concebê-la como um sexo “menos forte”
(porém, sem que esta debilidade a possa privar de tais direitos).
Mas, para Nietzsche, a afirmação mais interessante
de Platão, feita enquanto grego, é que, no Estado perfeito a família deve
desaparecer. Para tal, Platão troca o matrimônio pela união que serviria a
interesses estatais. E isso que Platão afirma não era mais que uma reflexão
que, em partes, se apoiava em sua realidade onde o individuo recebia tudo do
Estado para logo devolver-se-lo. E a mulher significava segundo isso, para o
Estado, o que o sonho é para o homem. Isto é:
“O sonho tem a virtude saudável de reconstituir o
desgaste produzido pela vigília; é a quietude benfeitora em que termina todo
excesso, a eterna compensação que vem para regular toda demasia. Nele sonha a
geração futura.”
Portanto, a cultura é sempre algo exterior para a
mulher, e que não consegue tocar o germe eternamente fiel da Natureza, que a
mesma traz em si. E é por isso que, para os atenienses, a mulher era algo diferente
ou, quando não, algo ridículo.
À mulher grega que dá a luz aos grandes sábios, se
lhe exige viver como um símbolo da sabedoria epicura: lathe biôsas (vive
retirada). Ela, a mulher-mãe, deve viver na obscuridade por uma necessidade
política exigida pelos mais altos fim do Estado.
Nietzsche percebe então que a essência da mulher
segue sendo a mesma, porém, seu poder é diferente segundo a posição do Estado
com respeito a ela, pois a mulher consegue preencher as lacunas do Estado, se
mantendo frente ao mesmo em sua condição de “sonho” (como comparada
anteriormente).
As mulheres helênicas aceitaram as imposições do
Estado e, entretanto, gozaram de uma soberania de que não voltaram a gozar. E a
prova dessa afirmação são as deusas da mitologia grega que são “imagens
reflexionadas” dessas mulheres. Elas eram sacerdotisas por cuja boca falava a
sabedoria divina:
• As Pitonisas
• As Sibilas
• A socrática Diótima
Assim, a resignação das espartanas diante da
notícia da morte de um filho em uma guerra, não deve ser tomada como fábula,
jaz que a mulher se sentia em seu posto com relação ao Estado e, por isso,
mostrava uma “dignidade” que não voltou a sentir.
A supressão do matrimonio e da família por parte de
Platão é uma acentuação de seu “respeito” ante essas mulheres e sua posição
social. Ele se vê seduzido a devolver-lhes seu status correspondente em uma
realidade ulterior à declaração de igualdade das mesmas com relação aos homens;
e eis ai o mais alto triunfo da mulher antiga: haver seduzido aos sábios.
A mulher está destinada a completar o Estado
destruído. Pois, nas sociedades “sem Estado”, se sente mais afincadamente o
papel da mulher como protetora das futuras gerações; e o grau de intensidade
dessa força é condicional a consolidação do Estado. Por isso se pode afirmar
que, nos momentos de desorganização e arbitrariedade nos quais o capricho ou
paixão do homem individual arrasta tribos inteiras, a mulher se levanta
repentinamente como profetiza admonitória. Prova disso foi Pítia que encarnou como
nenhuma aquele poder da mulher que equilibra o Estado.
Grécia, apesar de tudo, foi sempre “uma” com seu
maravilhoso fenômeno da Pitonisa e o Oráculo dos Delfos: pois sempre, enquanto
o gênio grego elaborou suas obras de arte, falou por “uma” boca e como “uma”
pitonisa.
Nietzsche conclui com um pressentimento e uma
conjectura sobre a qual tem o sentimento de que ela representa uma “sublime
perspectiva” sobre a qual, em outra ocasião, pretende lançar um olhar desde
outro ângulo.

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