domingo, 10 de junho de 2012

A mulher grega segundo Nietzsche

Por: Hênio Santos de Almeida




Resenha de: NIETZSCHE, Frederich Wilhem. Obras Completas. Tomo I: El Origen de la Tragedia y Obras Póstumas de 1869 a 1873. Buenos Aires: M. Aguilar, 1947. (Traducción, introducción y notas de Eduardo Ovejero y Maury).

Nietzsche afirma que Platão, seguindo a preocupação geral de sua época, afirma e considera a posição da mulher na Grécia como pouco digna e contraria as leis da humanidade. Platão não faz mais que justificar logicamente o que já existia na prática. E, diante dessa postura de Platão, Nietzsche coloca a seguinte pergunta: A condição da mulher grega não guardava uma relação “necessária” com o ideal do povo grego?

Nietzsche percebe que há uma concepção platônica da mulher que está em aberta oposição com os costumes helênicos. Para Nietzsche, nesta fase, Platão concede a mulher grega:

a) Participação nos direitos

b) Participação nos conhecimentos

c) Participação nos deveres dos homens

d) Ademais de concebê-la como um sexo “menos forte” (porém, sem que esta debilidade a possa privar de tais direitos).

Mas, para Nietzsche, a afirmação mais interessante de Platão, feita enquanto grego, é que, no Estado perfeito a família deve desaparecer. Para tal, Platão troca o matrimônio pela união que serviria a interesses estatais. E isso que Platão afirma não era mais que uma reflexão que, em partes, se apoiava em sua realidade onde o individuo recebia tudo do Estado para logo devolver-se-lo. E a mulher significava segundo isso, para o Estado, o que o sonho é para o homem. Isto é:

“O sonho tem a virtude saudável de reconstituir o desgaste produzido pela vigília; é a quietude benfeitora em que termina todo excesso, a eterna compensação que vem para regular toda demasia. Nele sonha a geração futura.”

Portanto, a cultura é sempre algo exterior para a mulher, e que não consegue tocar o germe eternamente fiel da Natureza, que a mesma traz em si. E é por isso que, para os atenienses, a mulher era algo diferente ou, quando não, algo ridículo.

À mulher grega que dá a luz aos grandes sábios, se lhe exige viver como um símbolo da sabedoria epicura: lathe biôsas (vive retirada). Ela, a mulher-mãe, deve viver na obscuridade por uma necessidade política exigida pelos mais altos fim do Estado.

Nietzsche percebe então que a essência da mulher segue sendo a mesma, porém, seu poder é diferente segundo a posição do Estado com respeito a ela, pois a mulher consegue preencher as lacunas do Estado, se mantendo frente ao mesmo em sua condição de “sonho” (como comparada anteriormente).

As mulheres helênicas aceitaram as imposições do Estado e, entretanto, gozaram de uma soberania de que não voltaram a gozar. E a prova dessa afirmação são as deusas da mitologia grega que são “imagens reflexionadas” dessas mulheres. Elas eram sacerdotisas por cuja boca falava a sabedoria divina:

• As Pitonisas

• As Sibilas

• A socrática Diótima

Assim, a resignação das espartanas diante da notícia da morte de um filho em uma guerra, não deve ser tomada como fábula, jaz que a mulher se sentia em seu posto com relação ao Estado e, por isso, mostrava uma “dignidade” que não voltou a sentir.

A supressão do matrimonio e da família por parte de Platão é uma acentuação de seu “respeito” ante essas mulheres e sua posição social. Ele se vê seduzido a devolver-lhes seu status correspondente em uma realidade ulterior à declaração de igualdade das mesmas com relação aos homens; e eis ai o mais alto triunfo da mulher antiga: haver seduzido aos sábios.

A mulher está destinada a completar o Estado destruído. Pois, nas sociedades “sem Estado”, se sente mais afincadamente o papel da mulher como protetora das futuras gerações; e o grau de intensidade dessa força é condicional a consolidação do Estado. Por isso se pode afirmar que, nos momentos de desorganização e arbitrariedade nos quais o capricho ou paixão do homem individual arrasta tribos inteiras, a mulher se levanta repentinamente como profetiza admonitória. Prova disso foi Pítia que encarnou como nenhuma aquele poder da mulher que equilibra o Estado.

Grécia, apesar de tudo, foi sempre “uma” com seu maravilhoso fenômeno da Pitonisa e o Oráculo dos Delfos: pois sempre, enquanto o gênio grego elaborou suas obras de arte, falou por “uma” boca e como “uma” pitonisa.

Nietzsche conclui com um pressentimento e uma conjectura sobre a qual tem o sentimento de que ela representa uma “sublime perspectiva” sobre a qual, em outra ocasião, pretende lançar um olhar desde outro ângulo.

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