domingo, 10 de junho de 2012

A maldição de Hera

Por: Hênio Santos de Almeida

Dentre as muitas peripécias de Zeus, conta-nos a mitologia grega a história de uma bela e falante ninfa de nome Eco.

Diz a lenda que certo dia estava Zeus, o Rei dos deuses do Olimpo e marido de Hera, paquerando as ninfas do bosque, quando a enfezada esposa deu por sua falta. Indignada – e isso com razão –, a enciumada esposa desce do Olimpo para dar o flagrante no marido adúltero.

Para sorte de Zeus – que, como todo marido, detesta ser pego em flagrante –, uma das ninfas, a bela Eco, dona de uma voz aveludada e possuidora do dom da fala e, assim, grande contadora de estórias, percebeu a chegada da deusa e, para salvar o amigo, colocou-se no caminho dela e, como se diz em Minas Gerais, “garrou de conversa”, contando-lhe as mais interessantes e longas, é claro, histórias que conhecia.

Resultado? Bem, Zeus, percebendo a chegada da esposa, logo trata de voltar para seus aposentos reais, ou melhor, divinos, e Hera, percebendo-se enganada por uma reles ninfa, resolve vingar-se. Assim, decide lançar uma maldição sobre a pequena amiga de Zeus. A partir daquele momento, Eco perderia o dom da fala e tudo que poderia fazer seria repetir as últimas palavras que lhe dissessem.

Eco, apaixonada por Narciso, não lhe pôde declarar amor. O jovem abandonou-a e a ninfa, desesperada, embrenhou-se nos bosques, fugindo a qualquer convívio. Definhou tanto que, passado algum tempo, só restou dela a voz que fez eco nas montanhas. Esta é a razão pela qual, ainda hoje, quando falamos diante de um lugar vazio pleno de rochas, ouvimos a voz da triste ninfa a repetir nossas últimas palavras.

A primeira vez que ouvi essa lenda, percebi logo que ela pode servir de metáfora de muitas de nossas relações, sejam elas religiosas, educacionais, familiares ou mesmo políticas.

É obvio que a lenda vale por si, pois trata como maldição não a perda da fala, mas antes a repetição mecânica daquilo que se ouve. A ligação com a vida social me pareceu e ainda me parece óbvia. Quando os indivíduos de uma comunidade são privados dos mecanismos, dos espaços ou das oportunidades da fala, tenderão a repetir aquilo que lhes for dito.

Parece-me que por muito tempo tem sido assim em algumas escolas, faculdades e até mesmo nas igrejas.

É difícil não pensar aqui em algumas escolas e até faculdades onde alunos aprendem e professores ensinam, onde mestres falam e discípulos ouvem. Onde ainda se ouve “cala a boca” e os currículos são construídos e “passados” por quem já aprendeu para aqueles que nada sabem. Os mestres e doutores falam em nome da comunidade, escondidos, por vezes, atrás de títulos e siglas legitimadoras. Teorizam em cima de clássicos europeus e europeizantes sobre um povo que sequer sabe da existência desta tal de “Oropa”. E se existem aqueles que pretendem “ouvir”, os que não têm voz esbarram em mil obstáculos, dentre eles seus próprios pré-conceitos sobre essas vozes que pretendem decifrar.

É igualmente inevitável não pensar nas igrejas onde os ministros religiosos detêm a palavra, seja a revelação ou mesmo a pregação (e, neste caso, é Deus quem fala, ou melhor, uns poucos falam por Ele).

Esta atitude de não dar ao outro o direito da fala talvez provenha do medo de ouvir algo que não se quer ou que vá na contramão das paixões narcisistas, das concepções religiosas ou teológicas, do estilo educacional, elitista ou etnocentristas daqueles que detêm o poder da fala ou, como em alguns casos, o "poder do microfone".

Isto é assim porque permitir a fala pode significar a perda do poder ou mesmo mudanças tão significativas que mesmo os mais interessados em mudanças não estão dispostos a arriscar.

Neste ponto, vejo como positivo o trabalho das comunidades e agentes de pastoral negra, os grupos de gênero e, de forma geral, os movimentos populares que estão crescendo cada vez mais. Eles são espaços onde, independentemente do objetivo dos seus líderes, as pessoas c o n v e r s a m e não apenas ouvem.

Dizem que o que nos torna humanos, entre outras coisas, é a linguagem; mas como bem sabemos, é preciso aprender a falar. E este aprendizado, me parece, não se concluí com 4 ou 5 anos de faculdade, pois ele simplesmente não termina. Aliás, ele pode inclusive ser desaprendido.

Ao não falarmos, podemos cair na maldição de Hera, nos tornarmos meramente repetidores das coisas que ouvimos. Se nos tornarmos meros repetidores perderemos, assim como Eco, aquilo que amamos. E isso pode ser o nosso amor-próprio, nossa capacidade crítica, nossa auto-estima, nossa cultura, nosso jeito próprio de ser de vestir e agir.

REFERENCIAS:


DONATO, Hernâni. Dicionário de Mitologia. São Paulo: Cultrix, 1973.
GRIMAL, Pierre. Diccionario de Mitologia Griega y Romana. Barcelona: Paidós Ibérica, 1989.
BRANDÃO, Junito. Dicionário Mítico-Etimológico. vol. I. Petrópolis: Vozes, 1991.
BRUNEL, Pierre (org.). Dicionário de Mitos Literários. Rio de Janeiro: José Olympio, 1997.
DICIONÁRIO DE MITOLOGIA GRECO-ROMANA. São Paulo: Abril Cultural, 1973.

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