REFERENCIA: HORKHEIMER, Max. & ADORNO, Theodor
W. Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos. Riode Janeiro:
Jorge Zahar, 1985 (Título do original: Dialektik der Aufklarüng –Philosophische
Fragmente. Tradução: Guido Antonio de Almeida).Por: Hênio Santos de Almeida
No inicio do progresso do pensamento, o esclarecimento absorveu para si duas tarefas:
1ª) Livrar os homens do medo;
2ª) Investi-los na posição de senhores.
Para tanto, era necessário que o esclarecimento
conseguisse desencantar o mundo. Para isto, era também necessário que
ele conseguisse substituir os mitos pelo saber. Bacon foi o primeiro a reunir
tais temas que tiveram sua união impossibilitada por conceitos vãos e
experimentos erráticos.
“A superioridade do homem está no saber”, sendo que
mesmo os reis não podem comprar tal saber. Este saber desconhece barreiras.
A proposta do esclarecimento era a supressão das
barreiras, sem visar conceitos ou imagens, mas valorizando método. Com isso, o
conhecimento da natureza é utilizado para dominação de si mesma e dos homens.
Mas não basta apenas um pensamento crítico, deve-se possuir um pensamento
meta-crítico. Pois, “[...] só o pensamento que se faz violência a si mesmo é
suficientemente duro para destruir os mitos.” A verdade neste caso, não é o
objetivo final, mas sim a operation(também denominado de procedimento
eficaz).
A investigação de Adorno e Horkheimer quanto ao
conceito de esclarecimento parte da percepção de que a busca pelo
esclarecimento é a busca pela superação do medo, ao mesmo tempo em que coloca o
homem na posição de senhor da natureza e de outros homens. Esta busca pelo
esclarecimento, que é a busca pelo saber, é o que diferencia o ser humano. O
projeto do esclarecimento era a demitologização do mundo, através da ciência e
da técnica. “Não deve haver nenhum mistério, mas tampouco o desejo de sua
revelação”.
Para desencantar o mundo, os autores identificam a
estratégia do esclarecimento: supressão da filosofia pela ciência, do conceito
pela fórmula, que seria mais “neutra”. Para tanto, era necessário que as idéia “universais”
fossem destruídas, pois “na autoridade dos conceitos universais ele [Bacon] crê
enxergar ainda o medo pelos demônios, cujas imagens eram o meio, de que se
serviam os homens, no ritual mágico, para tentar influenciar a natureza”. Há,
dessa forma, a delimitação do espaço de ação da ciência: a imanência, sem se
submeter a nada externo, oculto ou superior.
Os autores passam a analisar os mitos, para
compreender a que o esclarecimento se propunha. Para os esclarecidos, os mitos
podem ser reduzidos a um denominador comum, que é o sujeito. A partir disso, os
autores percebem semelhanças na estrutura dos mitos e no projeto esclarecedor:
para este último, é necessário reduzir toda a natureza a um número e, por fim,
ao uno.
A argumentação dos autores dá atenção para os mitos
novamente, afirmando que estes já eram produto do esclarecimento. “O mito
queria relatar, denominar, dizer a origem, mas também expor, fixar, explicar”.
Os próprios mitos propunham alterações e supressões, separando elementos
materiais das respectivas divindades. A atividade do mito torna a realidade um
mero objeto da ação humana, com o preço da alienação dessa mesma realidade.
Neste sentido, o projeto do esclarecimento ao
reduzir tudo ao uno, acaba por destruir a identidade: nada pode ser idêntico a
si mesmo. No entanto, essa pretensão de unidade e igualdade não pode ser obtida
sem a utilização da coerção social. Com isso, os autores identificam certa
semelhança entre a abstração esclarecedora e o destino mitológico: comporta-se
como um processo de liquidação.
A continuidade da argumentação tece comentários
sobre a arte autêntica e a imitação. É neste momento que se dá a separação do
signo e da imagem, que a filosofia vai tentar, em vão, superar depois. A arte
seria como que um ancoradouro, onde o homem poderia encontrar refúgio quando o
conhecimento o desamparasse.
Criticando as pretensões de filósofos como Platão e
Aristóteles, o esclarecimento propõe um nominalismo. “O esclarecimento
nominalista detém-se diante do nomen, o conceito sem extensão, punctual,
o nome próprio”.Isso podia ser visto com clareza na religião judaica,
argumentam os autores, onde era proibido pronunciar o nome de Deus.
Os
autores acusam o esclarecimento de ter se tornado ele próprio um mito. Isso por
ele ter um caráter totalitário, pois o processo está definido de antemão, como
numa equação, onde mesmo sem conhecer o valor da incógnita, já foi reduzida e
uma igualdade. “O pensar reifica-se num processo automático e autônomo,
emulando a máquina que ele próprio produz para que ela possa finalmente
substituí-lo”.
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