domingo, 10 de junho de 2012

A Dialética do Esclarecimento de Adorno e Horkheimer

REFERENCIA: HORKHEIMER, Max. & ADORNO, Theodor W. Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos. Riode Janeiro: Jorge Zahar, 1985 (Título do original: Dialektik der Aufklarüng –Philosophische Fragmente. Tradução: Guido Antonio de Almeida).


Por: Hênio Santos de Almeida



No inicio do progresso do pensamento, o esclarecimento absorveu para si duas tarefas:
1ª) Livrar os homens do medo;
2ª) Investi-los na posição de senhores.
Para tanto, era necessário que o esclarecimento conseguisse desencantar o mundo. Para isto, era também necessário que ele conseguisse substituir os mitos pelo saber. Bacon foi o primeiro a reunir tais temas que tiveram sua união impossibilitada por conceitos vãos e experimentos erráticos.
“A superioridade do homem está no saber”, sendo que mesmo os reis não podem comprar tal saber. Este saber desconhece barreiras.
A proposta do esclarecimento era a supressão das barreiras, sem visar conceitos ou imagens, mas valorizando método. Com isso, o conhecimento da natureza é utilizado para dominação de si mesma e dos homens. Mas não basta apenas um pensamento crítico, deve-se possuir um pensamento meta-crítico. Pois, “[...] só o pensamento que se faz violência a si mesmo é suficientemente duro para destruir os mitos.” A verdade neste caso, não é o objetivo final, mas sim a operation(também denominado de procedimento eficaz).
A investigação de Adorno e Horkheimer quanto ao conceito de esclarecimento parte da percepção de que a busca pelo esclarecimento é a busca pela superação do medo, ao mesmo tempo em que coloca o homem na posição de senhor da natureza e de outros homens. Esta busca pelo esclarecimento, que é a busca pelo saber, é o que diferencia o ser humano. O projeto do esclarecimento era a demitologização do mundo, através da ciência e da técnica. “Não deve haver nenhum mistério, mas tampouco o desejo de sua revelação”.
Para desencantar o mundo, os autores identificam a estratégia do esclarecimento: supressão da filosofia pela ciência, do conceito pela fórmula, que seria mais “neutra”. Para tanto, era necessário que as idéia “universais” fossem destruídas, pois “na autoridade dos conceitos universais ele [Bacon] crê enxergar ainda o medo pelos demônios, cujas imagens eram o meio, de que se serviam os homens, no ritual mágico, para tentar influenciar a natureza”. Há, dessa forma, a delimitação do espaço de ação da ciência: a imanência, sem se submeter a nada externo, oculto ou superior.
Os autores passam a analisar os mitos, para compreender a que o esclarecimento se propunha. Para os esclarecidos, os mitos podem ser reduzidos a um denominador comum, que é o sujeito. A partir disso, os autores percebem semelhanças na estrutura dos mitos e no projeto esclarecedor: para este último, é necessário reduzir toda a natureza a um número e, por fim, ao uno.
A argumentação dos autores dá atenção para os mitos novamente, afirmando que estes já eram produto do esclarecimento. “O mito queria relatar, denominar, dizer a origem, mas também expor, fixar, explicar”. Os próprios mitos propunham alterações e supressões, separando elementos materiais das respectivas divindades. A atividade do mito torna a realidade um mero objeto da ação humana, com o preço da alienação dessa mesma realidade.
Neste sentido, o projeto do esclarecimento ao reduzir tudo ao uno, acaba por destruir a identidade: nada pode ser idêntico a si mesmo. No entanto, essa pretensão de unidade e igualdade não pode ser obtida sem a utilização da coerção social. Com isso, os autores identificam certa semelhança entre a abstração esclarecedora e o destino mitológico: comporta-se como um processo de liquidação.
A continuidade da argumentação tece comentários sobre a arte autêntica e a imitação. É neste momento que se dá a separação do signo e da imagem, que a filosofia vai tentar, em vão, superar depois. A arte seria como que um ancoradouro, onde o homem poderia encontrar refúgio quando o conhecimento o desamparasse.
Criticando as pretensões de filósofos como Platão e Aristóteles, o esclarecimento propõe um nominalismo. “O esclarecimento nominalista detém-se diante do nomen, o conceito sem extensão, punctual, o nome próprio”.Isso podia ser visto com clareza na religião judaica, argumentam os autores, onde era proibido pronunciar o nome de Deus.
Os autores acusam o esclarecimento de ter se tornado ele próprio um mito. Isso por ele ter um caráter totalitário, pois o processo está definido de antemão, como numa equação, onde mesmo sem conhecer o valor da incógnita, já foi reduzida e uma igualdade. “O pensar reifica-se num processo automático e autônomo, emulando a máquina que ele próprio produz para que ela possa finalmente substituí-lo”.

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