domingo, 10 de junho de 2012

O conceito de “mercadoria” em Karl Marx

Por: Hênio Santos de Almeida


INTRODUÇÃO

Este diálogo fictício com Karl Marx tenciona proporcionar as pessoas uma ideia geral de seu conceito de “mercadoria” segundo Marx. Seguirei o modelo proposto por Sócrates, dialógico, no qual as ideias vão sendo construídas aos poucos, a fim de chegar ao conhecimento do assunto tratado. Optei por ter como interlocutor o próprio autor, em uma situação imaginária, onde ele explica o que escreveu em seu texto “Die Ware” (In: MARX, Karl. Das Kapital. Kritik der politischen Oekonomie. Buch I: Der Produktionsprocess des Kapitals. Hamburg: Meissner 1867, capítulo 1).

 

A MERCADORIA
(Die Ware)

 (Marx) – Hênio, o que está te deixando assim, tão preocupado?

(Hênio) – É que gostaria de explicar a várias pessoas teu conceito de mercadoria que aparece naquele aquele teu texto... A Mercadoria.

(Marx) – Mas qual o problema? Nós já conversamos sobre ele várias vezes... Pensei que tu concordavas com o que escrevi...

(Hênio) – Concordo, em parte, mas discutir é uma coisa, escrever é outra muito diferente...

(Marx) – Posso tentar te ajudar, se tu deixares, é claro.

(Hênio) – Eu aceito a ajuda...

(Marx) – Vamos começar então...

(Hênio) – A mercadoria é, na sociedade capitalista, a forma elementar da riqueza. O acúmulo das mercadorias significa acúmulo de riquezas...

(Marx) – Exatamente. A mercadoria é um objeto externo – uma “coisa” que possui propriedades – utilizado para satisfazer as necessidades (Bedürfnisse) humanas.

(Hênio) – E o que isso tem a ver com o valor da mercadoria?

(Marx) – Primeiro é necessário diferenciar o valor-de-uso e o valor-de-troca. O valor-de-uso é dado pela utilidade da mercadoria. Ela própria é um valor-de-uso. Esse tipo de valor só se realiza no consumo. É o conteúdo material da riqueza e os veículos materiais do valor-de-troca.

(Hênio) – E como sei sobre o valor-de-troca?

(Marx) – Através da relação quantitativa de valores-de-uso diferentes. Aparentemente, a mesma mercadoria tem vários valores-de-troca, pois pode ser trocada por várias outras em quantidades diferentes. O que acontece é que todos os valores-de-troca de uma mercadoria representam uma igualdade, expressando uma substância distinguível dele.

(Hênio) – Como assim? Não compreendi muito bem...

(Marx) – Hênio, se pegarmos duas mercadorias: o trigo e o ferro, independentemente da proporção das trocas, é possível expressá-la com uma igualdade, por exemplo, uma tonelada de trigo = n toneladas de ferro.

(Hênio) – Mas como comparar duas mercadorias de espécies diferentes?

(Marx) – Aí é que está: é como se houvesse uma terceira coisa, à qual as duas se igualam, mas que é diferente de ambas. Todos os valores-de-troca são redutíveis a essa terceira. Uma tonelada de trigo = x e n toneladas de ferro = x.

(Hênio) – Mas o que é essa “terceira coisa” tão misteriosa?

(Marx) – Calma, já chegamos lá. Antes, porém, é necessário vermos que diferentes valores-de-uso valem um tanto quanto o outro, se estiver na proporção adequada.

(Hênio) – E como isso se dá?

(Marx) – Como valores-de-uso, as coisas são de qualidades diferentes, mas como valores-de-troca são de quantidades diferentes, não restando nada de valor-de-uso.

(Hênio) – Deixa-me ver se entendi até aqui: o valor-de-uso de uma mercadoria é determinado por suas propriedades, que servem para satisfazer as necessidades humanas. O valor-de-troca, por sua vez, é a redução de dois ou mais valores-de-uso, diferentes em qualidades, a algo que lhes é comum e ao mesmo tempo diferente deles. Com essa redução, todos os valores-de-uso tornam-se iguais, se estiverem nas proporções adequadas.

(Marx) – Exato! Agora, voltando àquela pergunta anterior: ao retirarmos o valor-de-uso de uma mercadoria, só lhe resta a propriedade de ser produto do trabalho (Arbeit) humano. Abstraindo as formas e elementos que a fazem valor-de-uso, resta apenas o trabalho humano abstrato. A forma de medir o valor (Wert) de um bem é a partir da quantidade de trabalho nele contido, que é medido, por sua vez, pelo tempo de sua duração...

(Hênio) – Espera aí: se assim fosse, uma pessoa preguiçosa levaria mais tempo para produzir uma mercadoria, que teria um valor maior. E uma pessoa que, devido à sua habilidade, leva menos tempo para fazer a mesma mercadoria, consequentemente, teria um valor menor.

(Marx) – Aí que tu te enganas... Esse tempo de trabalho não é o tempo de um indivíduo particular, mas a média do tempo necessário para a produção (Produktion) da mercadoria. É o tempo socialmente necessário para se produzi-la.

(Hênio) – Mas como uma mercadoria pode mudar de valor então? E os aumentos de preços, como tu explicas?

(Marx) – É que o tempo socialmente necessário para a produção de uma mercadoria não é constante: ele varia se houver mudança na produtividade. Dá para tirarmos a regra: o valor de uma mercadoria varia na proporção direta da quantidade e na inversa da produtividade do trabalho aplicado nela.

(Hênio) – Humm... Entendi: se produzir muito num tempo curto, o valor de cada unidade será menor, pois será embutida uma quantidade menor de trabalho.

(Marx) – O trabalho possui um duplo caráter: um quando se expressa como valor, que é o trabalho útil, associado ao valor-de-uso da mercadoria; outro, quando gera o valor, que é o dispêndio da força humana. Mede-se o trabalho humano gerador de valor a partir do trabalho simples médio (t), ao qual o trabalho qualificado pode ser reduzido como trabalho simples multiplicado (xt). Isso permite que trabalhos qualitativamente diferentes sejam comparados. Se o valor de uma mercadoria representa o trabalho nela contido, é possível compará-las em determinadas proporções. O mesmo trabalho gera no mesmo tempo a mesma quantidade de valor, embora possa gerar quantidades diferentes de valores-de-uso.

(Hênio) – Se em uma hora, são produzidos duas mercadorias, o valor é de cada uma é igual a 1. Se, nessa mesma hora, são produzidas 4 mercadorias, o valor unitário será 0,5, já que a soma dará o mesmo valor de antes: 2. Certo?

(Marx) – Sim. E se for produzida apenas uma mercadoria, seu valor será 2.

(Hênio) – Agora poderei fazer o trabalho para entregar ao professor. Penso em transcrever nosso diálogo. Nada é mais válido que o próprio autor falar sobre sua obra. Obrigado, amigo!

(Marx) – Não há de quê! Se precisar de mais alguma coisa, tu sabes o meu endereço, é só escrever ou visitar.
 

A MERCADORIA
(Die Ware)


A mercadoria é a unidade básica da sociedade capitalista. O acúmulo de mercadorias é acúmulo de riquezas. Marx diferencia dois tipos de valores da mercadoria:

Valor-de-uso: É o tipo de valor que advém das propriedades da mercadoria. Só é realizado no consumo. Serve para suprir necessidades humanas;

Valor-de-troca: É o tipo de valor advindo do trabalho empregado para a produção da mercadoria. Serve para comparar mercadorias de valores-de-uso diferentes. É o valor propriamente dito.

 A partir dessa diferenciação, Marx define que o trabalho humano deve ser medido em relação ao Tempo Socialmente Necessário para a produção de dada mercadoria. Tempo que advém da média do tempo que os indivíduos (Individuen) levam para a produção. Esse tempo varia de acordo com as mudanças na produtividade, fazendo variar o valor das mercadorias. Marx passa, então, a diferenciar dois tipos de trabalho:

Trabalho útil: É o tipo de trabalho gerador de valor-de-uso;

Trabalho abstrato: É o tipo de trabalho gerador de valor. É o resíduo do trabalho humano, independentemente das diferenças qualitativas desse trabalho. É medido pelo trabalho simples médio, ao qual todos os trabalhos qualificados são redutíveis.

Reduzindo todos os tipos de trabalho ao trabalho simples, Marx constata que o valor de uma mercadoria é gerado pelo tempo requerido para sua produção. Tendo chegado a essa definição, Marx demonstra que o valor advém do tempo de trabalho e que o trabalho consumido em um tempo igual produz um mesmo valor, independentemente da quantidade de valor-de-uso produzida nesse ínterim. Se uma mercadoria é produzida em 1 hora, seu valor é igual ao valor de 6 mercadorias produzidas em 10 minutos cada. Uma mercadoria produzida em 2 horas tem o mesmo valor de duas mercadorias produzidas em uma hora cada. É essa igualdade de valor produzido pelo mesmo tempo de trabalho que permite as trocas de mercadorias diferentes, em suas proporções.
 

FETICHISMO DA MERCADORIA
(Warenfetischismus)


Aqui, Marx demonstrará que o mistério da mercadoria está na própria forma de mercadoria, pois o trabalho humano toma a forma de quantidade de valor. Dessa forma, as relações sociais dos produtores assumem a forma de relação social entre os produtos do trabalho.

A mercadoria é misteriosa por ocultar a relação existente entre trabalhos individuais e o trabalho total. A relação definida entre homens assume a forma fantasmagórica da relação entre coisas. Marx demonstra que em sociedades como a feudal, a relação social é mais visível e que na sociedade capitalista, o valor é computado como se fosse intrínseco à mercadoria.

Um comentário:

Elaine Malasartes disse...

Adorei o diálogo com o véio Marx!